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Joãozinho nas Nuvens
 
Joãozinho está pendurado num pedaço de céu, voando em seu parapente. Empurrado pelo desafio de fazer algo que nunca havia feito, Joãozinho começará a associar fatos. Perceberá que as nuvens sobre sua cabeça estão convidativas, se é que me entendem quando digo convidativas se não é nada mais que parecidas com o portal de um grande parque de diversões escancarado, aberto, chamando para dentro de si cada um que passa pela frente mesmo aqueles que desviaram pelas mais distantes avenidas. É como um restaurante com luzes amarelas que usa a imagem do aconchego para atrair os passantes para suas mesas, é a luz vermelha iluminando de soslaio as descobertas pernas e seios das oferecidas putas convidando os ansiosos para o mergulho nas volúpias dos quartos baratos, é o som desafinado dos karaokês chamando os candidatos ao estrelato-minuto para o interior dos decadentes estabelecimentos, é como a termal que empurra o parapente para cima cada vez mais forte convidando Joãozinho a penetrar nas entranhas e mistérios da espessa nuvem que está sobre sua cabeça.

Convidativa porque ela cresce, engorda, escurece devagarzinho, ou será rapidinho?, sobre a cabeça de Joãozinho.

Joãozinho perceberá que o aparelhinho apita cada vez mais forte, diferente da dificuldade normal de enrolar a termal. Desta vez sobe fácil, sobe rápido, quase vertiginosamente. Joãozinho está num novo universo, como um caça níqueis que vomita moedas ao menor movimento da alavanca. A nuvem agradecida chama Joãozinho para seu interior enquanto lhe presenteia com uma térmica cada vez mais potente. É o canto da sereia que ecoa mais alto nos ouvidos dos marinheiros mais próximos até se tornar tão envolvente que não haverá maneira de desistir. É a esperança de encontrar a Fada da Nuvem que o Sivuca disse-lhe um dia que existia.

Entrar na nuvem, que ao longe parecia tarefa difícil, agora é tarefa certa, indiscutível para Joãozinho que tão perto dela está. Aos olhos dos que longe dela estão, continua tarefa difícil, talvez digna de admiração. Lá está o Joãozinho, dirão eles, como pilota bem! Como conduz com maestria as complexidades das termais até tanto se aproximar da quase inalcançável vagina nebulosa que paira sobre a montanha enquanto exibe seus contornos sem pudor, ela sabe o quanto todos abaixo dela são insignificantes. Joãozinho começará a sentir um certo desconforto, seu parapente exibirá traços de rebeldia durante a fase final da subida. Não há mais termal, tudo sobe, tudo atrai para dentro, tudo conspira hipnoticamente para a expedição no interior da flutuante nebulosa. Joãozinho respira fundo e logo sente seu corpo sendo envolvido pela neblina enquanto o chão abaixo de seus pés vai desvanecendo-se, apagando-se, desaparecendo do universo. Joãozinho está em um novo mundo, um mundo sem pé nem cabeça, um mundo que com seu sopro gelado, lhe acaricia a pele mesmo sem tocá-la. A rebeldia da sua máquina voadora aumenta e Joãozinho começa a perceber que nas mucosas de seu novo mundo, os solavancos são maiores e mais difíceis de controlar, que estas mesmas mucosas são úmidas, são molhadas, são geladas. Água escorre pelas linhas e pelos tirantes formando um colar de contas que pinga ao vento enquanto seu rosto se molha, escorre numa mistura de lágrimas de alegria e pura condensação.

Num instante de saudade do mundo que ficou do lado de fora, Joãozinho olha para a bússola que gira incansavelmente. Está tudo rodando! Está tudo molhado! Está balançando muito. Onde está a Fada da Nuvem? O gigantismo do novo mundo começará a trazer arrepios ora de medo, ora de frio e Joãozinho se sentirá cada vez menor e mais indefeso. Tentar manter uma linha reta no cego vôo que se proporcionara se tornará uma tarefa cada vez mais complexa. A subida continua vertiginosa, são mais de duzentos metros desde o primeiro contato, metros estes que não se traduzem no tempo da forma como o conhecemos, mas num lento e apavorante arrastar.

A decisão está tomada, é hora de sair daqui! Joãozinho tentar acionar as orelhas, tão fáceis do lado de fora, mas tão turbulentas, tão complicadas aqui dentro. Mesmo com elas continua subindo enquanto também sobe um arrepio pela espinha que anuncia o medo que está sentindo neste preciso momento em que seu parapente se fecha e mergulha em alguma direção que até ela é difícil de precisar. Puxa os freios, pára de rodar, estola muito fácil, o pano molhado não é mais o mesmo, é pesado, é lento, é assustador. Não há espaço nem coragem para a espiral. Os encantos da sereia se transformaram em lancinantes gritos de Tiremmedaqui, a Fada da Nuvem não deu seu ar da graça e Joãozinho quer sair logo desta porcaria ao mesmo tempo em que percebe que cristais de gelo se formam tanto ao redor dos tirantes quanto ao redor de seus cílios atrapalhando-lhe a desorientada visão. Os solavancos perduram por minutos a fio, a sensação de estar de cabeça para baixo traz uma sensação de enjôo e Joãozinho sabe que este é um péssimo lugar para enjoar. Estará Joãozinho como Macabéa de Clarice Linspector, sentindo saudade do amanhã? Há uma mistura de suor frio com frio suarento no corpo que desorienta Joãozinho até que ele grita Querosair!! Querosair!!

Então, como por um milagre, sim, porquê precisamos de um pequeno milagre para salvar nosso herói e porque nossas estórias sempre acabam bem, cortantes raios de sol emergem sobre a cabeça de Joãozinho que por uma coincidência do instante divino, atira o olhar para a sombra de seu parapente penetrante da névoa formando um espetacular e nuncadantesvisto arco-íris circular ao redor da projeção de seu corpo nuvem adentro. A Fada da Nuvem se aproxima delicadamente e lhe toca o ombro com o dedo anular como um pequeno empurrão para fora de seus domínios. Joãozinho sairá da nuvem quatrocentos metros acima de sua base e ela, a maldita lhe sorrirá naquele instante adquirindo matizes de montanha de algodão, não uma apenas, mas várias enquanto Joãozinho navegará por este plácido vale de nuvens. A visão é recompensadora, Joãozinho sabe que a Fada das Nuvens existe, está relaxado e suspira profundamente observando a beleza infinita da natureza que se manifesta grandiosamente ao seu redor.

Porém, Joãozinho pagou com o terror da incerteza um preço altíssimo para se proporcionar esta visão e agora questiona se ela lhe é digna. Joãozinho sabe que precisa ter um nível técnico de pilotagem coerente com o risco que correu e sabe que o transgrediu, sabe que a experiência foi tão grandiosa quanto o poder da natureza e que o seu pequeno parapente é apenas um ponto vulnerável dentro de um cumulocongestus tão grande. Conclui então, que não é merecedor da recompensa final, que o tamanho do sacrifício não lhe justificou a experiência enquanto uma lágrima de arrependimento lhe gela as bochechas rosadas. Ele, de vítima a culpado, ele mesmo decreta ali naquele instante que jamais retornará para dentro de uma nuvem, ao menos não para uma nuvem como aquela, sem limite de crescimento, com base gorda e escura, uma que poderá virar um congestus, para não dizer um cumulonimbus, uma que aparece no verão, uma que tem um topo muito alto, ou que está cercada de outras com topos mais altos ainda, uma que se concentra sobre a montanha e pode crescer mais rápido do que se pensa. Não este tipo de nuvem, mas aquelas alegres, redondinhas, que parece que foram carimbadas no céu num dia de primavera, todas do mesmo tamanho. Para uma daquelas sim ele retornará e desfrutará da incrível experiência que é o passeio dentro da nuvem, para a improvável experiência que é o receber o singelo toque do dedo anular da Fada da Nuvem.

Detalhe técnico:

Joãozinho se arriscou demais, pois com o ganho de altura dentro de uma nuvem várias coisas ruins podem acontecer, entre elas:

A temperatura cai muito atrapalhando no seu julgamento, habilidade motora e até no nível de consciência, ou seja, você pode desmaiar de frio ou no mínimo ter os dedos, lábios e nariz congelados.

O parapente pode estolar espontaneamente devido ao acúmulo de água no tecido.

A recuperação do estol com a vela encharcada é muito mais lenta e até mesmo improvável, ou seja, você despenca com a vela em negativa.

A turbulência pode facilmente chegar a níveis insuportáveis e impossíveis de se controlar, ou seja, seu parapente se fecha e você despenca em auto-rotação.

É pouco provável, mas você pode se chocar contra outro piloto e aí a m. tá feita.

Se Joãozinho tiver a sorte de simplesmente sair da nuvem, poderá estar sobrevoando um lugar muito distante daquele onde ele gostaria de estar, eventualmente colocando-o em risco de pousar na roubada completa.

A perda de orientação é tanto com relação a direção em que se está indo quanto no nível espacial, ou seja, perde-se a sensação de em cima/embaixo. Isto pode provocar enjôos.

Se a nuvem se desenvolver enquanto Joãozinho estiver dentro dela esta poderá chegar a se transformar em um cumulonimbus e neste caso Joãozinho certamente passará desta para melhor. Na verdade não precisa tanto, se Joãozinho ultrapassar os quatro mil metros de altitude, tudo será uma incrível chuva de gelo que poderá rapidamente transformar a aventura de Joãozinho em uma tragédia de proporções bíblicas.

Tudo bem, entubou e não gostou, o que fazer? (nesta ordem caso a operação não dê certo)

Fazer orelhas, pisar no acelerador e fazer orelhões, necessariamente nesta seqüência, ficando atento a bússola e procurando manter a rota de vento de cauda para sair mais rapidamente da roubada. Taxa de queda max = -5m/s. Tenha paciência, pode ser que continue subindo mesmo assim, não permita subir mais alto que 3500, vai começar a congelar demais.

Fazer estol de B, Taxa de queda max = -8m/s. Procure manter a calma e o alinhamento da vela.

Fazer espiral "over the nose" Taxa de queda max = +-18m/s. O giro e o G (aceleração centrífuga) vai ser animal, você vai passar mal, mas segura a onda se quiser sair vivo dessa.

Provocar um colapso assimétrico fazendo o parapente entrar em giro, puxar com as duas mãos as linhas do tirante A e se possível B junto para deixar só um pedacinho de parapente aberto. O giro vai ser animal e ainda você vai ter de tirar do giro e reabrir a vela.

Jogar o pára-quedas de emergência? Somente estando lá para tomar uma decisão destas. No jogo de vida e morte vale tudo.

Finalmente, Joãozinho não é bobo de fazer um full estol como alguns amigos dele sugeriram. Ele sabe que um B-estol desce mais rápido que um full estol e sabe também que o full é muito mais difícil de controlar, podendo facilmente se transformar em outro problema ainda mais difícil de resolver. Nada de full, Joãozinho...

Moral da história: Nuvens, só aquelas com limite de crescimento com no máximo 200 metros de altura, caso contrário a roubada pode ser muito grande.


Silvio Carlos Ambrosini – Sivuca – www.ventomania.com.br

Fonte: Silvio Ambrosini - Sivuca - Data: 08/01/2011
 


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