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Adrenalina
 
Adrenalina
 
Mensagem escrita à lista de discussão Parapente-BR
 
25 de outubro 1999
 
Aos meus amigos pilotos:
 
Vejo que um dos principais apelos da imprensa contemporânea com relação aos chamados "esportes radicais" é o fator ADRENALINA.
 
Os meios de comunicação concentram todo ou a maior parte do apelo de marketing na emoção crua, na taquicardia, no suor frio, na sensação
inigualável que estes esportes "radicais" proporcionam. Basta observar como exemplo, desde comerciais da Hollywood até as perguntas feitas por
jornalistas em entrevistas feitas com pilotos de parapente.
 
As pessoas estressadas com seus empregos lhes tomando horas e horas dos dias da semana, procuram uma nova forma de aliviar estas tensões,
imaginando (segundo diz a mídia) que a explosão de adrenalina será a maneira eficaz. Telefonam às escolas de parapente sempre perguntando sobre as incríveis sensações que irão sentir ao dependurar-se no ar.
 
Se fosse somente isto, não haveria problema ate aqui, já que realmente pode-se extrair várias ampolas do líquido "adrenante" que inunda nosso córtex cerebral ao se fazer uma simples espiral.
 
O problema na verdade começa a ficar sério quando verificamos que vários pilotos em nossas rampas não estão alertas a fatores importantes que
envolvem nosso esporte e acabam sendo necessários para que este seja praticado de forma segura.
 
O aspecto técnico tem sido colocado de lado para dar lugar a métodos velozes de aprender a fazer wingovers e espirais radicas. A pressa em sentir a prometida adrenalina faz com que estes pilotos pulem etapas, se desinteressando, ou o que é pior, nem tomando conhecimento dos passos a
seguir antes de sair "arrepiando" por ai.
 
Sinto que algumas escolas se preocupam (sem dúvida) com a segurança, mas acabam se tornando ineficientes no exercício, pois se dedicam a difundir uma cultura dogmática, ditando o proibido ao invés do recomendado. Mostra-se o que não pode em lugar de procurar despertar interesse pelas etapas que deveria-se percorrer antes de chegar no "pedestal" da adrenalina, se é que o esporte a assim considera. Eu pessoalmente discordo totalmente deste conceito.
 
Os pilotos experientes que voam cross country ou sabem fazer manobras radicais esquecem-se que um dia foram iniciantes e que a primeira térmica,
ou mesmo a primeira inflada eficaz, foi para eles tão importante quanto o vôo de 80km ou a espiral de -15m/s. Estes pilotos, involuntariamente, deixam de valorizar as "pequenas" conquistas dos iniciantes, exigindo deles uma velocidade maior que suas pernas são capazes de produzir. Estes sentem que a pesquisa de pêndulos, ou variações de pressão durante uma curva e outros exercícios "simples", porem necessários, não passam de um monte de balelas e partem para os comandões ou se atiram na turbulência para voar como seus amigos mais experientes, afinal, tudo parece tão fácil neste esporte, não é?
 
Esta falha tem ao meu ver parcelas de culpa divididas. De um lado a mídia que prega adrenalina. De outro as escolas que não valorizam as pequenas
conquistas tornando "um saco" a fase inicial de qualquer aluno e finalmente os "amigos de rampa" que demandam mais audácia a curto prazo do iniciante.
 
O resultado são pilotos que se acidentam tentando fazer manobras totalmente adiante de sua capacidade técnica. Pilotos desinteressados por estudos aerológicos e micrometeorológicos. Pilotos que não se importam com homologação, materiais ou design de parapentes. Pilotos sem espírito de preservação do meio ambiente ou mesmo respeito pelos demais seres humanos que dividem espaço na mesma rampa ou no ar. Pilotos que não observam o espaço que os rodeia, que apenas se atiram das montanhas tentando desesperadamente subir o mais alto possível o mais rápido possível.
 
Pois acredito que o esporte é formado de todas estas coisas e se o instrutor não despertar interesse por elas, que ira fazê-lo? Espera-se que os amigos da rampa (médicos, engenheiros e publicitários) sejam mais didáticos que um educador que se propõe a criar metodologia educacional de ensino de vôo livre? Possível, mas pouco provável.
 
Estarei eu vivendo um mundo de ilusões utópicas de longo prazo? É possível.
 
Mas toda árvore foi semente um dia, não e verdade?
 
Sivuca

Fonte: Silvio Ambrosini - Sivuca - Data: 08/01/2011
 


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