Voando juntos chegaremos mais longe! por Roberto Hering

07/06/2013 - Publicado por: Azeite - Categoria: Clínicas - Tags: clinica abp parapente segurança

Voando juntos chegaremos mais longe !

Já faz alguns anos que pratico o voo livre. Para ser mais exato, comecei a voar de Asa Delta em 1981 e de Paraglider ou Parapente em 1988, somando 32 anos de voo livre neste ano de 2013.

Passei por diversas fases deste esporte no Brasil. Desde a total falta de estrutura e pouquíssimos voadores do início, até os dias de hoje. 

Atualmente, uma pessoa pode aprender a voar com muito mais segurança, tendo a sua disposição instrutores credenciados por associações, que trabalham efetivamente por uma qualificação da instrução e pelo crescimento seguro do esporte. 

Se olharmos para o passado, veremos que o desenvolvimento do esporte foi lento, árduo e muito caro para alguns que se acidentaram ou perderam a vida voando. Sou praticamente um sobrevivente desta fase.  

Me lembro de que quando comecei, era estudante e não tinha muito dinheiro, mas tinha muita vontade de voar.

Comprei uma Asa com mais dez alunos do ITA, que achavam que podiam aprender sozinhos como eu. Assim, lá fomos nós, nos atirar dos morros com o senso completamente enevoado e deslumbrado. Como quebrávamos três barras da Asa por dia, meus amigos foram desistindo e acabei sendo o único a continuar de fato.

Com a minha pouca idade, me sentia indestrutível e arrojado. Mais tarde, meu pai prevendo o perigo, praticamente me forçou a ter algumas aulas com um instrutor no Rio de Janeiro!

Anos mais tarde em 1988, fui um dos pioneiros do Paragliding em São Paulo. 

O entusiasmo e a falta de informação continuaram inevitavelmente me acompanhando, pois o esporte apenas começava no mundo, só que neste caso já tinha a experiência da Asa. Mesmo os mais antigos de um certo modo, também eram iniciantes. 

Como engenheiro aeronáutico e amante do esporte me tornei construtor (Aerobatti) e posteriormente instrutor de Parapente. 
Durante esta fase, reconheci os mesmos sintomas de deslumbramento e falta de informação nas rampas em que voei. Deixei de ser instrutor já faz tempo, mas ainda percebo estes sintomas.

O entusiasmo gerado pelo voo, nubla nossa capacidade de julgamento e nos expõe ao risco.

Lendo recentemente um artigo do Mike Meier (Wills Wing), atualmente no site da USHPA e publicado inicialmente em Setembro de 1998, fiquei admirado como este artigo continua atual e expressa de forma envolvente nossa realidade.

(http://www.willswing.com/articles/Article.asp?reqArticleName=HandleOnSafety)

No caso é um enfoque de voador de Asa, mas se aplica a segurança no voo em geral.

No artigo, Mike Meier conta um episódio de acidente num pouso difícil, apesar de sua grande experiência de voo e das inúmeras vezes que já havia pousado seguro naquele local.
Posteriormente, analisando suas decisões em face as condições do momento, termina concluindo que apesar de sua capacidade e experiência, ele não se acidentou antes no mesmo local por sorte. 

Neste ponto, ele levanta um ponto importante sobre segurança e nosso comportamento perante ao risco.

O que diminui nossa sujeição ao acidente é agirmos preventivamente ao longo de cada voo. 
Quando voamos, a cada decisão que tomamos, novos cenários se apresentam e novas decisões devem ser tomadas. A cada uma destas decisões temos um risco inerente associado.
Identificando antecipadamente o risco de cada cenário, podemos estabelecer margens de manobra, nos colocando seguros ainda que erremos um pouco.

Analisando as condições do vento de cada camada, as térmicas, as nuvens, os ciclos, os rotores, começamos decidindo a hora da decolagem, a rota de voo, a estratégia e continuamos tomando decisões a todo momento, até pousarmos para então podermos relaxar.

Devemos estabelecer margens para cada uma destas decisões, não deixando o acaso tomar conta.
Em um cenário que estamos numa térmica, cuja derivada nos leva para o rotor de um morro, seria prudente termos altura de sobra acima do morro. Se não tivermos essa margem de altura, é mais seguro voltarmos para frente do morro e tentarmos uma nova térmica.
Em um cenário que estamos rodando uma térmica a baixa altura, devemos estabelecer um limite de altura, para chegarmos com sobra a um pouso seguro.

Quanto mais voamos mais experientes ficamos, mas não significa que nos tornaremos imunes a acidentes. É da natureza humana relaxar ou se descuidar ao longo dos anos. Devemos identificar e nos prevenir deste comportamento. Não podemos deixar de ficar atentos e de lembrar que as margens de segurança devem ser renovadas a cada voo.

Se quisermos fomentar o esporte com uma menor incidência de acidentes, precisamos da conscientização dos pilotos, de exemplos de atitudes corretas em nossas rampas, além de escolas de qualidade, de equipamento adequado ao nível de cada piloto e da disseminação de informações. 

Quanto mais informação o piloto tiver, menor será o risco de acontecer um acidente. Todo sítio de voo tem suas características próprias e basta perguntar ao instrutor local ou aos pilotos mais experientes para obter essas informações.Podemos enriquecer nosso conhecimento através de publicações, artigos, vídeos, cursos, palestras ou a partir da simples troca de experiências com outros pilotos. A partir do momento que disseminamos uma informação, que compartilhamos alguma decisão correta ou até incorreta tomada em voo, já estamos contribuindo para a evolução do esporte. 

Recentemente resolvi participar da 19.a Clinica da ABP, primeiramente por um antigo pedido do Claudio Consolo reiterado mais recentemente pelo Luciano (Azeitona).

A Clínica foi direcionada tanto para instrutores como para pilotos procurando um aprimoramento. Durante estes dias, foram tantos os conhecidos e conversas recheadas de lembranças, que me senti muito bem estando lá. Encontrei amigos num ambiente ótimo, onde cerca de 300 participantes no total tornaram o evento uma festa. 

Assisti a aulas e palestras sobre voos, segurança, equipamentos, marketing, aspectos legais do esporte, manobras e situações de voos, divisão do espaço aéreo e outras. Uma palestra muito aguardada foi a de Hernan Pitocco que dispensa apresentações. Também foram realizadas atividades paralelas como abertura de reservas em tirolesa, inflagem e eventos entre as diversas equipes em que foram divididos os pilotos durante o “curso de nivelamento”. Tudo isso ocorreu num hotel fazenda com ótimas refeições, estas regadas a divertidas conversas e situações que toda aquela galera junta gerava.

O que notei ao final, foi que os participantes do evento se sentiram homenageados e orgulhosos de terem participado da festa, também por entenderem que o esforço de cada um, representava uma participação para a evolução do esporte.

Muitos dos pilotos novos com quem conversei, entraram na Clínica com dúvidas ou receios das provas. Quando terminou o evento, saíram confiantes e dispostos a propagar o que aprenderam, sabendo que continuarão futuros autores do esporte, mas de uma maneira mais segura.

Fiquei muito bem impressionado com a atuação dos pilotos, fundadores, dirigentes, voluntários e também dos profissionais do voo que lá compareceram, para passar seu conhecimento ou falar sobre algum assunto de interesse.

Precisamos indiscriminadamente da ajuda de cada voador para o crescimento seguro do esporte. Sabemos que a cada voo que fazemos aprendemos um pouco mais, mas também sabemos que quando voamos juntos mapeamos muito mais o terreno, andamos mais rápido e conseguimos chegar mais longe. Podemos aplicar esta experiência também para nossa organização!

Que a “ABP somos todos nós” é uma verdade e depende inteiramente de nós contribuirmos, fazendo cada um a sua parte! 

Voando juntos conseguiremos chegar bem mais longe! 

Bons voos a todos !

Roberto Hering






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